terça-feira, 14 de outubro de 2008

eclipse

Sol a pino, o menino busca refúgio na sombra da mãe.
Mal sabe ele que essa sombra o acompanhará por muitos dias e noites e deixará em sua alma marcas muito mais profundas que as deixadas pelo sol em sua pele.
Menino, ouve: para crescer, é preciso nascer de novo, e de novo, e de novo.
Haverá sangue, haverá choro. Haverá luz.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Herança - 2

- Sabe qual é o seu problema?
- Não, mas acho que você vai me dizer.
- Eu vou dizer qual é o seu problema.
- Pode dizer.
- O seu problema é que você teve tudo na vida muito fácil. Muito fácil. Nunca precisou lutar para ter nada. Recebia tudo ali na mão, prontinho. Conheço esse tipo de gente. Sei muito bem como você é.
- Tô vendo.
- Tem esse arzinho arrogante. Ai, quem é essa louca para me dizer tudo isso, não é? Pois alguém tinha que lhe dizer umas verdades! Tirar você desse pedestalzinho. E eu digo mesmo. Você acha que por acaso eu tenho medo de você? Pois saiba que eu não tenho!
- Que bom.
- Nunca tive medo de seu ninguém. Já enfrentei todo tipo de gente. Minha vida não foi essa moleza não. Não recebi nada de mão beijada. Foi tudo ali suado, na luta. Você não tem idéia do que é isso. Acha que papai e mamãe me mandaram pra Europa? Acha que eu estava nas festinhas da faculdade toda noite? Que eu tinha psicólogo para contar meus probleminhas? Não tive nada disso!
- Que pena.
- Pena? Não precisa ter pena de mim, não. Que graças a Deus eu fui abençoada com muita força. Desde pequena: nasci com um problema de saúde e disseram que eu nem ia sobreviver. Mas eu lutei, lutei, lutei e venci. Minha vida foi toda assim. Encontrei muitos desafios, muita gente falsa. Nunca tive ajuda pra nada. Criei meu filho sozinha, trabalhando e estudando. Mas batalhei e venci.
- Parabéns, então.
- Não quero parabéns nenhum, que eu não sou do tipo que faz as coisas para ter elogio, que nem você. Se eu estou te dizendo isso tudo, é só por uma coisa.
- O quê?
- É para fazer você acordar para a realidade. Para você perceber que essa sua futilidade, essa sua vida boa não levam a lugar nenhum.
- Você quer que eu sofra o mesmo que você sofreu. É isso?
- Eu? Deus que me livre de querer o mal de alguém. De jeito nenhum. Não tenho raiva de você, não. Meu coração está em paz. Tenho é pena, porque toda essa sua felicidade, esse seu sucesso, é artificial. Sabe o que eu queria, do fundo do meu coração? Que você pudesse se transformar numa pessoa melhor.
- Aí eu vou ter de discordar de você...
- O quê?
- O que você queria mesmo, do fundo do seu coração, era poder se transformar em mim.

sábado, 20 de setembro de 2008

Rewind

O e-mail era curto e relativamente direto. Ele queria saber porque a gente não tinha dado certo.
A versão simples: foi só uma noite. E lá se vão nove anos.
A versão difícil: ao longo de nove anos eu me faço diariamente essa mesma pergunta.
O detalhe cruelmente desnecessário: no iPod tocava Radiohead.

"Why don't you remember my name?
I guess he does...
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height..."

Eu achava que era louca. Pensar todo dia, toda noite. Relembrar cada palavra sussurrada. Eu realmente achava que era 100% louca.
Bom, talvez eu seja.
Mas, pelo menos, não estou sozinha nessa maldita insanidade. O que também não representa um grande alívio.
Na verdade, é ainda pior.
Porque eu pelo menos acreditava na existência de uma resposta _não necessariamente uma boa resposta. Não algo que me fizesse até feliz _categoria: "você é ótima mas eu descobri que sou gay, querida" (Ufa! Estava além das minhas capacidades, então.)
Eu aceitaria até explicações mais dolorosas: "você era alienada e brega e ridícula".
Dane-se, eu ia entender.
Bastava eu criar coragem que estaria tudo resolvido.
Tudo.

Isso só pode ser uma pegadinha.
Alguém foi dizer rindo que após umas biritas aquela louca da faculdade, lembra dela?, ainda enche o saco das amigas perguntando: por que a gente não deu certo? alguma vez ele comentou alguma coisa com vocês? ele deu algum sinal? eu achava que ele gostava de mim... ele disse que pensava em mim quando ouvia aquela música...
"Rain down, rain down
Come on rain down on me"

Como esse filho da mãe renasce assim das trevas? Aliás, como ele descobriu o meu e-mail? Será que foi ele mesmo que mandou? Não.
Foi?

E se for?
O que eu posso dizer?
Se ele queria. Se eu queria tanto. O que faltou?

Sou estapeada pela resposta mais complicada (e a mais simples): não há motivos.
Há o acaso, o caos, a fortuna.
Lembro deles dizendo: se eu me esforçasse muito, muito mesmo.
Acreditei.
Mas chega. É isso: não tivemos sorte. Azar o seu. Azar o meu. "Marionetes do destino". Que seja. Talvez a gente possa se encontrar de novo e lamentar tudo o que poderíamos ter sido.
Talvez não.
Pego uma moeda na bolsa. Jogo pra cima.
Deu cara: apago o e-mail.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Primavera-verão


De fora pra dentro:
alma listrada
alma florida
alma de bolinhas

bolso especial para poeminhas à toa

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Hokkaido


foto: www.meupapeldeparedegratis.com.br/nature/pages/black-dog.asp

Meus pais eram filhos únicos, e eu também. Quando eles morreram, sobramos apenas eu e meu avô. Sabíamos que a história da família acabaria conosco. Não que fosse uma grande história, mas decidimos passar o resto dela juntos. Assim, larguei meu emprego numa imobiliária e voltei para Santa Rita.
Meu avô me instalou no quarto que havia pertencido à minha mãe e, tirando o colchão, encontrei tudo em bom estado. Nos primeiros dias, jogamos baralho, passeamos pela beira do rio e conversamos sobre os velhos tempos. Não demorou muito, porém, para percebermos que, por menores que fossem nossas necessidades afetivas, o que tínhamos a oferecer um ao outro era muito pouco. E a solidão que experimentávamos juntos era ainda mais incômoda que a causada pela ausência.
Para alegrar o velho, certo domingo saí cedinho rumo à feira da ponte. Quando voltei, trazia pela coleira um cachorrinho preto, com manchas brancas no focinho e nas patas. Na soleira da porta, meu avô parou banguelamente boquiaberto. Espremeu os olhos, que a visão há tempos lhe pregava algumas peças.
- O que é isso, menino? Um cachorro?
- É sim senhor.
- Para mim?
- Pro senhor.
O latido agudo do novo hóspede assustou o velho, que começou a rir do próprio susto, balançando as juntas e esquecido das dores. Ajoelhou-se para afagar o filhote:
- Você vai se chamar Hokkaido.
Pela primeira vez em muito tempo, me senti feliz comigo mesmo.
Foram bons tempos.
Por causa de Hokkaido, meu avô desenvolveu o hábito de caminhar todas as manhãs até o rio. Depois do almoço, o velho roncava na rede e Hokkaido me acompanhava até o trabalho, de onde partia para um passeio solitário. No fim da tarde, ele e o velho apareciam para me buscar. A caminhada se esticava até o trevo, e voltávamos pela estrada velha, atirando galhos secos adiante.
Hokkaido se tornou um cachorro grande, forte e manso. Talvez por isso, eu e o velho também acreditamos ser grandes e fortes. Comprei um belo colchão de molas. O avô, uma dentadura _roía com prazer os ossos do frango assado de domingo.
Mas a natureza sempre sacrifica os melhores, e Hokkaido foi atropelado por uma caminhonete na estrada velha. De volta ao mundo dos fracos, mal consegui carregá-lo até em casa. Sobre a cama que havia pertencido à minha mãe, Hokkaido agonizou e morreu. De manhã, o enterramos perto do rio.
- Ele sempre gostou desse lugar _disse o velho, olhos perdidos no balanço dos juncos.
Chutei com a ponta do sapato o resto de barro grudado na pá. Seria o caso de fazer uma oração ou algo assim?
Mas o velho já se afastava.
- Vô _chamei_. Por que o senhor escolheu esse nome? Hokkaido?
- Ah isso... _ele virou-se levemente para mim_ Faz muito tempo, eu conheci uma mulher. Uma japonesa. Foi um grande amor.
Ele suspirou.
-Não me entenda mal: a sua avó era uma mulher maravilhosa e fomos felizes juntos. De todo modo, o que passou passou. Não se fala mais nisso.
Voltamos para casa em silêncio.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O tempo do tempo

Sim, ele voltou, como ela esperava que voltasse.
Ela só não esperava que ele voltasse assim, tão rápido.
E se ela o aceitou, não foi sem uma pontada de saudade da solidão que mal pôde experimentar.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Parei no fúcsia



Lista de cores que eu não conheço:

- Azul Galápagos
- Calçada
- Fendi
- Off
- Ostra

Será que a falta de vocabulário me impede de reconhecer certas nuances?


Os nomes eu achei aqui: www.trinita.com.br

terça-feira, 8 de julho de 2008

Mundo miniatura

*Pequenos prazeres

Márcia
Adora a dramaticidade contida no ato de esmagar o cigarro com a ponta do scarpin.

Tales
No ônibus, entrega a quantia exata ao cobrador.

Luísa
Deixa a melhor parte do prato por último.

Isabel
Coleciona chaves antigas.

Ivan
Sente-se revigorado sempre que bate nos filhos.

*Pequenos pavores

Thais
Tirar sangue.

João
Nadar no lago.

Maria José
Gozar.

*Pequenas mágoas

Alcides
Foi vaiado.

Marina
Ele preferiu Helena.

Indira
Aquele nauseante perfume barato.

Firmino
Nunca recebeu flores.