sábado, 20 de setembro de 2008

Rewind

O e-mail era curto e relativamente direto. Ele queria saber porque a gente não tinha dado certo.
A versão simples: foi só uma noite. E lá se vão nove anos.
A versão difícil: ao longo de nove anos eu me faço diariamente essa mesma pergunta.
O detalhe cruelmente desnecessário: no iPod tocava Radiohead.

"Why don't you remember my name?
I guess he does...
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height..."

Eu achava que era louca. Pensar todo dia, toda noite. Relembrar cada palavra sussurrada. Eu realmente achava que era 100% louca.
Bom, talvez eu seja.
Mas, pelo menos, não estou sozinha nessa maldita insanidade. O que também não representa um grande alívio.
Na verdade, é ainda pior.
Porque eu pelo menos acreditava na existência de uma resposta _não necessariamente uma boa resposta. Não algo que me fizesse até feliz _categoria: "você é ótima mas eu descobri que sou gay, querida" (Ufa! Estava além das minhas capacidades, então.)
Eu aceitaria até explicações mais dolorosas: "você era alienada e brega e ridícula".
Dane-se, eu ia entender.
Bastava eu criar coragem que estaria tudo resolvido.
Tudo.

Isso só pode ser uma pegadinha.
Alguém foi dizer rindo que após umas biritas aquela louca da faculdade, lembra dela?, ainda enche o saco das amigas perguntando: por que a gente não deu certo? alguma vez ele comentou alguma coisa com vocês? ele deu algum sinal? eu achava que ele gostava de mim... ele disse que pensava em mim quando ouvia aquela música...
"Rain down, rain down
Come on rain down on me"

Como esse filho da mãe renasce assim das trevas? Aliás, como ele descobriu o meu e-mail? Será que foi ele mesmo que mandou? Não.
Foi?

E se for?
O que eu posso dizer?
Se ele queria. Se eu queria tanto. O que faltou?

Sou estapeada pela resposta mais complicada (e a mais simples): não há motivos.
Há o acaso, o caos, a fortuna.
Lembro deles dizendo: se eu me esforçasse muito, muito mesmo.
Acreditei.
Mas chega. É isso: não tivemos sorte. Azar o seu. Azar o meu. "Marionetes do destino". Que seja. Talvez a gente possa se encontrar de novo e lamentar tudo o que poderíamos ter sido.
Talvez não.
Pego uma moeda na bolsa. Jogo pra cima.
Deu cara: apago o e-mail.

11 comentários:

Luiz Gómez disse...

Supondo que a história seja real (ou fictícia)
Fala sério que você (ela) não respondeu...

Unbelievable!!!

Acho que todo mundo tem uma pedra dessas no caminho... ou no coração.

Débora disse...

Há os que se perguntam, Ilis... Porém, há os que não se perguntam. (será?)

agatha disse...

que bom que eu desisto de mandar os emails com essa pergunta. Vai que um dia a pessoa joga a moeda e resolve me responder. Medo...

belo texto!

Gustavo Arimatea disse...

Hum...Radiohead é de matar mesmo.

Ilis disse...

Luiz, que bom saber que há essa ambiguidade! Bem, aqui é tudo real e é tudo ficção.
;)
Mas sabe, acho que às vezes, com o tempo, a gente simplesmente cansa de dar topada nessas pedras... E perde a curiosidade, né não?

Mesmo assim, Deboreide, acho que, em algum momento, a curiosidade tem que existir, não é?
A não ser que, para a outra pessoa, aquela experiência tenha sido totalmente insignificante (catiguria: passa o sal, obrigado).
Sei lá, será que ainda é romantismo demais da minha parte achar que tudo sempre tem que ter significado?

Agatha, concordo contigo. Saber a resposta são outros quinhentos.
Quem sabe a fantasia até nos poupa de alguns dissabores, né?

Gustavo, obrigada pela visita! E sim, Radiohead é de matar... Mas confesso que dei um golpe aí... Quando eu tinha os meus momentos de crise, eu embarcava em umas músicas bem bregas...
;)

No mais, alguém acredita que eu pensei nesse texto por causa de uma aula de política internacional?
Machiavel explica.
;)
bj

Ana Claudia Pantoja disse...

Eu não ia comentar não, por motivos óbvios. Mas pensei de novo e, no alto de quem vive exatamente isso, apenas reafirmei o que já achava: eu não quero saber. Todas as explicações morrem sempre na mesma razão - não havia amor suficiente. Ponto.

Ilis disse...

eita tu... será?
será que a simples (opa, nada simples) presença do amor é capaz de tornar tudo mais simples? fazer tudo dar certo?

realmente não sei a resposta para essa questão, xuxu...
bj

Rackel disse...

Sábia moedinha!
rs

Ilis disse...

é a moedinha da sorte do tio Patinhas.
;)
bj, Rack!

Luiz Gómez disse...

Cazuza já dizia:

o amor, na prática, é sempre ao contrário.

Ilis disse...

adorei essa frase.
:)
bj