quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Herança - 2

- Sabe qual é o seu problema?
- Não, mas acho que você vai me dizer.
- Eu vou dizer qual é o seu problema.
- Pode dizer.
- O seu problema é que você teve tudo na vida muito fácil. Muito fácil. Nunca precisou lutar para ter nada. Recebia tudo ali na mão, prontinho. Conheço esse tipo de gente. Sei muito bem como você é.
- Tô vendo.
- Tem esse arzinho arrogante. Ai, quem é essa louca para me dizer tudo isso, não é? Pois alguém tinha que lhe dizer umas verdades! Tirar você desse pedestalzinho. E eu digo mesmo. Você acha que por acaso eu tenho medo de você? Pois saiba que eu não tenho!
- Que bom.
- Nunca tive medo de seu ninguém. Já enfrentei todo tipo de gente. Minha vida não foi essa moleza não. Não recebi nada de mão beijada. Foi tudo ali suado, na luta. Você não tem idéia do que é isso. Acha que papai e mamãe me mandaram pra Europa? Acha que eu estava nas festinhas da faculdade toda noite? Que eu tinha psicólogo para contar meus probleminhas? Não tive nada disso!
- Que pena.
- Pena? Não precisa ter pena de mim, não. Que graças a Deus eu fui abençoada com muita força. Desde pequena: nasci com um problema de saúde e disseram que eu nem ia sobreviver. Mas eu lutei, lutei, lutei e venci. Minha vida foi toda assim. Encontrei muitos desafios, muita gente falsa. Nunca tive ajuda pra nada. Criei meu filho sozinha, trabalhando e estudando. Mas batalhei e venci.
- Parabéns, então.
- Não quero parabéns nenhum, que eu não sou do tipo que faz as coisas para ter elogio, que nem você. Se eu estou te dizendo isso tudo, é só por uma coisa.
- O quê?
- É para fazer você acordar para a realidade. Para você perceber que essa sua futilidade, essa sua vida boa não levam a lugar nenhum.
- Você quer que eu sofra o mesmo que você sofreu. É isso?
- Eu? Deus que me livre de querer o mal de alguém. De jeito nenhum. Não tenho raiva de você, não. Meu coração está em paz. Tenho é pena, porque toda essa sua felicidade, esse seu sucesso, é artificial. Sabe o que eu queria, do fundo do meu coração? Que você pudesse se transformar numa pessoa melhor.
- Aí eu vou ter de discordar de você...
- O quê?
- O que você queria mesmo, do fundo do seu coração, era poder se transformar em mim.

4 comentários:

Débora disse...

esse comentário tem de ser em inglês (desculpe o esnobismo):
OUCH! :)

Ilis disse...

hehehehe: pugilismo blasé.
:)
bj

Rackel disse...

Nossa, tirada P-E-R-F-E-I-T-A!
rsrsrs

Tava com saudade desse blog!

Z, disse...

fantástico.