Sonhei que nós dois tomávamos banho.
Nada erótico. Mesmo.
Havia, sim, carinho. Você tinha espuma nos ombros, e eu enxagüava meus cabelos.
Pela primeira vez, em muito tempo, eu me sentia realmente limpa.
O passado escorria pelo ralo.
Você sorria.
Acordei chorando.
Lá fora, chovia.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Telemarketing pessoal
- Bom dia, eu gostaria de estar falando com a senhora Raquel.
- É ela.
- Senhora Raquel, eu estou ligando para estar oferecendo os novos serviços da Relacionamentos Express.
- Obrigada, mas eu já tenho marido.
- Compreendo, senhora Raquel. A senhora desculpe a minha curiosidade, mas o senhor seu esposo é do modelo novo ou antigo?
- Como assim?
- Ele sabe cozinhar, faz massagens nos seus pés ao fim do dia, gosta dos seus amigos?
- Ahn... Não.
- E quanto ao seu investimento emocional, senhora Raquel? É de alto risco?
- Mais ou menos...
- A senhora considera o custo-benefício satisfatório?
- Bem...
- Senhora Raquel, desculpe a inconveniência, mas acredito que a senhora tenha em mãos um modelo defasado, que consome muita energia com pouco resultado. Se a senhora quiser, posso estar falando para a senhora sobre algumas de nossas vantagens na Relacionamentos Express.
- Vantagens?
- Basicamente, seguimos o padrão dos três L: legal, lindo e limpinho _tampa do vaso abaixada ou seu dinheiro de volta.
- Lindo tipo como?
- Estilo underwear model.
- Como?
- Tipo propaganda de cueca, senhora.
- Mas vocês também trabalham com erudição?
- Como?
- Cultura. Gente culta. Que lê, gosta de música.
- Ah, sim. Essa é uma característica adicional, mas que tem sido muito solicitada. No plano Premium, incluímos citações de Vinícius de Moraes, repertório de Djavan a Beatles e sessões de cinema nacional, como Central do Brasil.
- Bem... Tem alguma coisa assim... mais surpreendente?
- No plano Special, oferecemos noções de arte contemporânea, jazz, James Joyce e uma inexplicável atração pelas peças de José Celso Martinez Corrêa.
- Mmm... Aí já é meio chato. Algo intermediário?
- Esse estaria sendo o plano Supreme, senhora Raquel. Fernando Pessoa, Goya, Tarantino. Nas versões "samba de raiz", "indie" ou "nuevo tango".
- Orientação política?
- A que a senhora estiver preferindo.
- Fidelidade?
- 100%.
- O lance da tampa do vaso é pra valer?
- Ou o seu dinheiro de volta.
- Então anota aí o número do cartão de crédito.
- É ela.
- Senhora Raquel, eu estou ligando para estar oferecendo os novos serviços da Relacionamentos Express.
- Obrigada, mas eu já tenho marido.
- Compreendo, senhora Raquel. A senhora desculpe a minha curiosidade, mas o senhor seu esposo é do modelo novo ou antigo?
- Como assim?
- Ele sabe cozinhar, faz massagens nos seus pés ao fim do dia, gosta dos seus amigos?
- Ahn... Não.
- E quanto ao seu investimento emocional, senhora Raquel? É de alto risco?
- Mais ou menos...
- A senhora considera o custo-benefício satisfatório?
- Bem...
- Senhora Raquel, desculpe a inconveniência, mas acredito que a senhora tenha em mãos um modelo defasado, que consome muita energia com pouco resultado. Se a senhora quiser, posso estar falando para a senhora sobre algumas de nossas vantagens na Relacionamentos Express.
- Vantagens?
- Basicamente, seguimos o padrão dos três L: legal, lindo e limpinho _tampa do vaso abaixada ou seu dinheiro de volta.
- Lindo tipo como?
- Estilo underwear model.
- Como?
- Tipo propaganda de cueca, senhora.
- Mas vocês também trabalham com erudição?
- Como?
- Cultura. Gente culta. Que lê, gosta de música.
- Ah, sim. Essa é uma característica adicional, mas que tem sido muito solicitada. No plano Premium, incluímos citações de Vinícius de Moraes, repertório de Djavan a Beatles e sessões de cinema nacional, como Central do Brasil.
- Bem... Tem alguma coisa assim... mais surpreendente?
- No plano Special, oferecemos noções de arte contemporânea, jazz, James Joyce e uma inexplicável atração pelas peças de José Celso Martinez Corrêa.
- Mmm... Aí já é meio chato. Algo intermediário?
- Esse estaria sendo o plano Supreme, senhora Raquel. Fernando Pessoa, Goya, Tarantino. Nas versões "samba de raiz", "indie" ou "nuevo tango".
- Orientação política?
- A que a senhora estiver preferindo.
- Fidelidade?
- 100%.
- O lance da tampa do vaso é pra valer?
- Ou o seu dinheiro de volta.
- Então anota aí o número do cartão de crédito.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Na ponta dos dedos
Descendo a rua, vasculho o fundo da bolsa à procura das chaves _são todas quase iguais: o mesmo tamanho, o mesmo formato, a mesma cor. Mas meus dedos sempre adivinham qual é a certa e, pronto, eu destravo o portão. Então escolhem outra e, pronto, eu abro a porta do prédio. Por fim, encaixam a terceira na fechadura do meu apartamento e, voilá: home sweet home.
Tento fazer um ar casual, enquanto tiro o casaco e coloco água na chaleira para preparar um chá. Mas a verdade é que isso me espanta: como meus dedos descobrem a chave certa?
Se eu olhar para elas, sou incapaz de dizer qual é qual. Mas, ao longo dos últimos anos, algo em mim aprendeu a diferenciá-las.
Eu sei e eu não sei. Ao mesmo tempo.
* A chaleira apita.
Somos tão acostumados a passar o mundo pelo filtro da razão que assusta mesmo lembrar desse eu que dispensa qualquer discurso racional para existir.
Enquanto sonho/calculo, aceito/evito, busco/desisto e faço mil conjecturas; o sangue corre, as unhas crescem, a ferida cicatriza.
Bem mais eficientes que minha metade-pensante.
O que torna incoerente, para mim, aquela antiga dicotomia: alma versus corpo.
Não consigo associar o mais sublime de mim à razão. Ou à falta de razão.
Enlouqueço, logo existo?
É na minha carne que se manifestam os maiores milagres.
Quando mordo, é minha alma que morde.
Quando beijo, é minha alma que beija.
* O chá queimou minha língua.
Há uma outra porta, fechada há muito tempo _você sabe a que me refiro. Não sei como entrar. Ou sair.
Seja como for, há alguns dias tenho pensado nisso: talvez meu corpo saiba. Mas "pensar nisso" também é pensar. E enquanto isso, não tenho coragem... você sabe...
Coragem de tocar o invisível.
Tento fazer um ar casual, enquanto tiro o casaco e coloco água na chaleira para preparar um chá. Mas a verdade é que isso me espanta: como meus dedos descobrem a chave certa?
Se eu olhar para elas, sou incapaz de dizer qual é qual. Mas, ao longo dos últimos anos, algo em mim aprendeu a diferenciá-las.
Eu sei e eu não sei. Ao mesmo tempo.
* A chaleira apita.
Somos tão acostumados a passar o mundo pelo filtro da razão que assusta mesmo lembrar desse eu que dispensa qualquer discurso racional para existir.
Enquanto sonho/calculo, aceito/evito, busco/desisto e faço mil conjecturas; o sangue corre, as unhas crescem, a ferida cicatriza.
Bem mais eficientes que minha metade-pensante.
O que torna incoerente, para mim, aquela antiga dicotomia: alma versus corpo.
Não consigo associar o mais sublime de mim à razão. Ou à falta de razão.
Enlouqueço, logo existo?
É na minha carne que se manifestam os maiores milagres.
Quando mordo, é minha alma que morde.
Quando beijo, é minha alma que beija.
* O chá queimou minha língua.
Há uma outra porta, fechada há muito tempo _você sabe a que me refiro. Não sei como entrar. Ou sair.
Seja como for, há alguns dias tenho pensado nisso: talvez meu corpo saiba. Mas "pensar nisso" também é pensar. E enquanto isso, não tenho coragem... você sabe...
Coragem de tocar o invisível.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
PP
Tão baixo e magrelo que tem de comprar roupa na seção infantil. O problema é que o emprego exige o uso de terno.
- Se eu não encontrar a porra da roupa no tamanho, vou perder a vaga. Caraca.
- E é para trabalhar de quê?
- Segurança.
- Se eu não encontrar a porra da roupa no tamanho, vou perder a vaga. Caraca.
- E é para trabalhar de quê?
- Segurança.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Excesso de rimas e pouco alento
(para Simone)
O momento
é o terceiro elemento
de qualquer
relacionamento
O momento
é o terceiro elemento
de qualquer
relacionamento
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
)Entre(
Foi numa de nossas despedidas _ele ia morar em Recife. Os amigos fizeram uma festa e, a certa altura da noite, nós nos afastamos para um canto tranquilo nos fundos da casa.
Não importa o que falamos ou fizemos _clichês e um abraço, se tanto. O que ficou foi aquele lapso de poucos segundos, em que apenas nos olhamos em silêncio.
Quando voltamos, éramos um. E estávamos preparados para o adeus.
Não importa o que falamos ou fizemos _clichês e um abraço, se tanto. O que ficou foi aquele lapso de poucos segundos, em que apenas nos olhamos em silêncio.
Quando voltamos, éramos um. E estávamos preparados para o adeus.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
"Let's go to bed"

Ele sempre acordava antes e ia embora sem que ela percebesse.
Encontravam-se depois por acaso _difícil saber o que dizer nessas horas. Se as condições favorecessem, e ela bebesse um pouco, e ele também bebesse um pouco, saiam da festa, entravam no carro e iam para o apartamento dela.
O quarto-e-sala não oferecia muito: o armário, duas cadeiras e um velho sofá-cama. Era constrangedor montar tudo e arrumar as almofadas e estender um lençol para enfim se deitarem _certa vez, ela comentou que pretendia comprar uma cama de verdade; ele disse que não se importava.
Das paredes, pendiam cartazes de filmes e um ou outro pôster de banda _ele já sabia de cor: Pulp Fiction, Breakfast on Pluto, The Cure. Os olhos pintados de Robert Smith sempre pareciam lhe encarar enquanto ele fumava o último cigarro da noite (ou o primeiro do dia): "I won't say it if you don't say it first".
Mas naquela manhã, ela acordou mais cedo.
Inclinado na janela, ele soltava suas últimas baforadas em direção às nuvens.
Há tanto tempo ela queria algo assim _bom dia/café da manhã/jornal a dois_ que até sentiu medo. Por via das dúvidas, fechou os olhos e fingiu continuar dormindo.
De esguelha, viu ele se afastar da janela, vestir o jeans e a camiseta e, com todo o cuidado, recolher o vestido que ela, no calor dos acontecimentos, havia jogado no chão. Sim: ele buscou o resto de perfume na peça e beijou o tecido, antes de guardar o vestido no armário.
Pé ante pé, segurando os tênis pelos cadarços, ele partiu novamente.
Ela continuou de olhos fechados, com um sorriso nos lábios.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Assinar:
Postagens (Atom)