quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Idas e Vindas

Era a ex-mulher _ele mal reconheceu a voz ao telefone, até ser atingido por aquela antiga ânsia, as mãos geladas, a boca seca: quis desligar, arrancar o aparelho, sair correndo.
Mas a linha ficou em silêncio, e ele chamou:
Maria?
Maria, você ainda está aí?
Ela pareceu impaciente. "Sim! Estou esperando: você vai ou não vai?"
Onde?
Ela repetiu devagar: "Para o casamento da sua filha".
Foi a vez dele ficar em silêncio.
A mulher esperou, e sua voz voltou mais suave. "Eu sei que faz muito tempo. E que você não gosta dessas coisas. De sair daí... Mas eu não estou pedindo isso à toa. Seria muito importante para ela."
Pela sua cabeça passavam cenas de uma menina magricela aprendendo a andar de bicicleta.
"Bom, é isso. A Aninha não fala muito sobre essas coisas, mas eu sei que ela gostaria que você viesse. Pense um pouco nela. E pense em você também."
Ela esperou mais um pouco.
"Mandamos um convite. Deve chegar na próxima semana. Tem os nossos telefones, o endereço. Se você resolver vir, avise."
Ele envelheceu um século naqueles minutos.
Quantos anos haviam se passado? Quinze? Vinte? Ele não se lembrava mais. Na solidão do sítio, o dia era dia, a noite era noite, e era sempre hoje.
Aninha cresceu.
Agora ele tinha dois cachorros, um deles já manco e meio cego mas que, na escuridão da noite, ainda latia bravamente para possíveis intrusos. Quando o diabo do cachorro foi atropelado e ficou naquele morre não morre, o homem sofreu o inferno.
Era pai.
Devia aquilo à menina.
Provavelmente devia muito mais, mas dane-se. A menina ia casar e ele ia entrar na igreja com ela. Dane-se o resto.
No dia seguinte, amanheceu na estrada. A velha caminhonete rangendo e puxando para a esquerda e Xerife com a cabeça na janela, orelhas ao vento.
Passou no barbeiro, cortou o cabelo, aparou os tufos grisalhos que escapavam pelas orelhas e pelo nariz. Na loja, fez questão de explicar à vendedora: preciso de uma roupa para ir ao casamento da minha filha, Ana Cristina.
Eram umas peças incômodas como o inferno, e o preço era um roubo. Mas ele pagou _foi a roupa pendurada na cabine e o Xerife na carroceria, apesar da chuva fina.
Devidamente preparado, passou a semana inteira em agonia. O olho fixo na porteira, à espera do convite. Se os cachorros latiam, arrepiava-se todo _depois chutava um e outro pelo falso aviso.
Tentava imaginar a filha, mas o resultado era sempre uma mulher alta demais com cara de criança. Ao lado de uma bicicleta.

Esperava que o convite ao menos trouxesse uma foto. Não trouxe. Só o nome dela em letras douradas. E lá no alto, à esquerda: filha de Maria. E de Antônio.
Ana Cristina, filha de Antônio.
Pela primeira vez, em muito tempo, ele chorou.
Dane-se, não ia mais nesse casamento.

Aquela outra vida havia sido há muito tempo, e já tinha sido difícil ir embora uma vez _a mulher nunca entendeu que era uma questão de sobrevivência. No meio do mato, completamente sozinho, ele enfim conseguiu dormir, conseguiu respirar. Encheu os pulmões com o ar fresco e voltou a caminhar pelo sítio, amassando a relva com as botas, Xerife mancando logo atrás.
Mas à noite sonhou com a menina e acordou transtornado: Aninha caía num buraco e ele não conseguia alcançá-la.
Não havia espaço para dúvidas: ela precisava dele. E isso dava medo, mas não era ruim. Na verdade, era bom. E ele, apesar de todos seus defeitos, era um homem bom. Não mentia, não roubava, não era chegado em briga nem em bebida. E mesmo a sua reclusão havia sido algo bom _poupou Maria e Ana Cristina de si mesmo. Elas talvez nunca entendessem, mas foi por amor.
Só que as coisas mudam e Ana Cristina precisa do pai ali, de mãos dadas. Para entrar na igreja. Para enfrentar o padre. Para mostrar ao noivo e aos sogros que ela também tem família. Aliás, o noivo _ele precisava conhecer esse rapaz. Saber se a filha fez uma boa escolha.
Quem era ele para dar conselhos amorosos? _riu da própria incompetência.
Mas, de homem para homem, ia olhar nos olhos daquele rapaz. Na hora de entregar a mão da filha, ia encarar aquele moleque como quem diz: você vai cuidar dela.
Não vai fugir.
Não vai se acovardar.
Não vai fugir.
Rascunhou mil vezes uma longa carta, preparando o genro para a vida. Ora ameaçava, ora desabafava a própria solidão. "Fatalmente _chegou a escrever_ chegará o dia em que você pensará em abandonar tudo. Você caminhará até a esquina e sentirá que, se der mais um passo, não haverá volta." Por fim, desistiu. Não havia nada a dizer.
Só pedir perdão à filha.
E, desse jeito, recuperar a fé da menina em finais felizes.
"Sim", ele diria a ela, "eu sei que você tem medo, mas seu pai está aqui e vai dar tudo certo."
Foi assim, humilde e nobre, que ele se aproximou da igreja.
Maria estava linda.
Ela sorriu ao apertar sua mão. E agradeceu.
- A Ana Cristina ainda não chegou. Mas ela vai ficar tão feliz por saber que você está aqui.
Recomendaram que sentasse numa cadeira e ele aguardou, quase imóvel, a hora de ser chamado.
Mas os malditos sapatos torturavam seus dedos. A camisa coçava. E a gravata apertada sufocava que era o diabo.
Não conseguia respirar.
E pela porta lateral, fugiu novamente.

6 comentários:

Débora disse...

Ai, que trágico!!! O pior é a sensação que tem muita gente assim. Que sofre o diabo, mas não consegue atender a qualquer expectativa, talvez nem a que cria para si próprio. Mas o texto é muito bom, Ilis... Um beijão

Ilis disse...

pois é, Dé, cada um com seus limites...
infelizmente.

Simone Iwasso disse...

cada um com seus limites... nada como as palavras da própria autora sobre a obra. melhor do que qualquer coisa que eu pudesse falar. vc é boa, ilis. beijo!

Ilis disse...

adendo: ou seria "felizmente"?

obrigada, sissi.
beijos!

Anônimo disse...

Fantástico!!!
Mariana Miranda

Ilis disse...

Mariana, obrigada pela visita!
:)
bj