segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Santo anjo do Senhor

Na maior parte do tempo, eu consigo levar. Acordo cedo, cuido das minhas coisas, durmo um sono pesado e sem sonhos. Mas, às vezes, acontece alguma coisa _um insetinho que pousa no meu braço, uma criança que brinca na rua_ e eu sorrio. Imediatamente dói.
Esses são os momentos mais difíceis.
Li numa revista sobre a dor fantasma que assombra os amputados.
Perder um filho foi perder um pedaço de mim. Às vezes aquela alegria antiga faz cócegas e, num movimento involuntário, eu abro os lábios. É quando eu percebo que já não consigo ser feliz.
Com o tempo, perde-se também a capacidade de chorar. Mais que isso _de sentir. Frio, fome, dor. Você come e não sente o gosto. Não sabe mais o que é cheiro.
Num momento de lucidez, ou loucura, não sei, o meu corpo tremeu inteiro de medo _eu não lembrava o que era amar. As memórias vinham vazias: um menino _correndo na praça, vendo TV, sentado em meu colo. Um menino, apenas. E eu oca.
Meu Deus, estou virando um monstro?
Meu filho morrendo dentro de mim, no meu coração. Na minha alma. Tive medo de mim.
Então escureceu e amanheceu e eu, sentada no sofá, vi o desespero ser substituído pelo silêncio _dentro e fora. Aceitei a derrota.
Mas hoje uma borboleta azul entrou na cozinha enquanto eu coava o café e pensei que era ele que me fazia uma visita. Quis sorrir, e uma mão invisível apertou minha garganta.
O que pude fazer foi sentar e olhar.. Olhar... Olhar...

6 comentários:

Ana Claudia Pantoja disse...

Eu li e doeu também.

Ilis disse...

só uma pontadinha, espero. nada além disso, que eu não quero causar dor nesse mundo. bj, querida.

Z, disse...

Que texto mais sensivel... Até eu senti.

Simone Iwasso disse...

ilis, ilis, vc escreve bem demais...é uma outra amarilis que surge nos seus textos...

muitos beijos, amiga!

Lídia disse...

Que sensibilidade!
Fiquei mareada, juro!
Beijos, Lídia!

http://tobecontinueed.wordpress.com

Ilis disse...

Obrigada, pessoas.
Lígia, nova visitante, espero que tu volte.
bj