quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Outra fome

Não que faltasse comida: arroz, feijão, mandioca, carne, quiabo... Isso não. Nunca.
O que faltava a nossa gulodice infantil era o deleite. O caramelo, a bala de goma, o sorvete derretendo na boca e todas as cremosidades que só chegavam até nós pela televisão.
Doce, lá em casa, era canjica. E bolo, quando um de nós fazia ano. Mãe batia as claras de ovo com o garfo, até chegar no ponto de neve. Botava a massa no forno e derretia goiabada cascão num tanto d'água para fazer a cobertura, decorada, depois, com pitadas de coco ralado.
A gente não arredava o pé da cozinha, farejando o ar e lambendo os beiços. Ocorre, porém, que aquele cheiro que nos envolvia nunca se concretizava no bolo imaginado. O que chegava à mesa era uma massa pesada, escura nas bordas e melada por cima. Ainda assim, disputada a tapas pelo batalhão de crianças.
A esperança era passar as férias na casa do tio, na cidade. Cada ano ele escolhia um menino _nunca soube se por nota, por idade ou por bom comportamento. O sortudo voltava até mais gordo, com mil casos para contar de tudo o que havia comido. De manhã tinha bolo. Tinha iogurte. Tinha abacatada. No almoço, pudim. À tarde, pão com doce de leite. Os primos tomavam leite com chocolate antes de dormir. Dava até medo de ir tomar banho e perder alguma coisa.
A gente arregalava os olhos. Invejosos até o talo, mas também saciados e agradecidos pela descrição do banquete. Aquelas conversas nos alimentavam por noites a fio.
Quando fiz dez anos, fui eu o escolhido para visitar o tio. Os meninos se reuniram para me aconselhar. "Pede para ir no parque", disse um, que estalava a língua para falar de algodão-doce. "Tem que ir fazer compras com a tia", sugeriu outro.
A mãe, entre todas as recomendações, ressaltou uma: "Não vai me fazer passar vergonha comendo feito um esfomeado". Entregou até um lanche, que deixei no próprio ônibus. Era preciso pensar no futuro.
Cheguei à casa do tio no fim do dia, com a barriga roncando. Mandaram brincar com os primos, ver televisão. Mas eu só conseguia prestar atenção nos barulhos que vinham da cozinha.
Foi a tia chamar pra jantar que eu já estava na mesa. Mordisquei o pão, beberiquei o café-com-leite e me preparei para a comunhão divina.
A visão. Eu nem saberia descrever aquilo tudo para os outros meninos. Era um doce rosa, coberto por um creme branco, com pedacinhos disso e daquilo e uma calda transbordando por todos os lados. Dava até pena de comer, tão bonito que era.
Recolhi tudo o que pude com a colher e enchi a boca, em êxtase.
Mas o doce não tinha gosto de nada.
Aquilo entalou na garganta.
Com muito esforço, engoli a massa esponjosa.
Olhei ao redor assustado, em busca de uma explicação que não existia. E chorei.

11 comentários:

Cacau disse...

Você anda numa fase de me fazer chorar e ainda gostar disso.

Ilis disse...

:)
esse é um baita elogio.
obrigada de coração.
e chore não, que as lágrimas são salgadas. tu merece muita doçura na vida.
beijo!

Simone Iwasso disse...

algumas faltas são pra sempre.

lindo, ilis

Ilis disse...

será, si?
acho que com esforço e autoconhecimento, a gente consegue superar muita coisa... e depois até rir dos "traumas de infância".
;)
Beijo!

Anônimo disse...

Que delicadeza de texto... Remeteu-me ao inesquecível Miguilim! Vou visitar esse blog sempre, com certeza um que vale à pena, em meio a tanta bobagem que existe por aí...

Ilis disse...

cara anônimo. ou anônima.
muito obrigada pelo elogio. principalmente por associar meu gurizinho ao incrível Miguilim.
Vou aguardar suas novas visitas!
Abraço

Rackel disse...

Ahhhhhhhhh
Coitado desse menininnho!!! Sua cronica ficou barbara!
Vc tem um jeito de escrever q eu gosto mto - começar deixando o leitor na expectativa e depois dar um 'susto' no final do texto!

Adorei, esse texto.

bjs e bons ventos aí no blog

Ilis disse...

Obrigada, Rackel.
Confesso que eu mesma fico escrevendo, escrevendo na expectativa e também levo um susto quando chego ao final.
Volte sempre.
:)

Rackel disse...

Ah, voltarei com certeza!

E vou add seu blog na minha lista tb

bj

Débora disse...

Lindo, ilis! Quando há tanta expectativa, geralmente as coisas costumam um sabor bem abaixo do desejado. Ou zero. Responsabilidade do doce ou do sonhador? Besos!

Ilis disse...

Dé, não imagino de quem seja a responsabilidade, mas sei que, com ou sem razão, sempre sobra pra gente um gostinho amargo de culpa.