quarta-feira, 13 de junho de 2007

Queimada

Esta manhã, fui atropelada.
Nos breves instantes em que voei sobre o asfalto, de braços abertos, avistei a bola azul parada no ar.
Era infância e eu, caçula e franzina, passava as tardes sentada na calçada, vendo as partidas de queimada. De vez em quando, um primo se apiedava de meu olhar pidão e me deixava entrar. Eu corria para o centro da quadra (tão feliz) e dava o melhor de mim.
Só depois de muito suar, fugindo de um lado para o outro, fazendo caretas para os adversários e soltando gritinhos de susto, eu percebia. Podia apenas andar, arrastando as pernas lentamente, ou mesmo ficar parada, que não seria atingida pela bola azul. O alvo eram os outros. Eu era, sempre fui, café-com-leite.
Eu insisti, sabe... Todas as tardes eu sentava, eu esperava, eu corria para o centro do mundo em busca da violência que me era negada. Meus primos voltavam para casa cheio de hematomas. Meu corpo voltava machucado por dentro. Você sabe o que é dor?
Eu só sei que, atravessando a rua rumo ao trabalho (relatório-café-reunião-tec-tec-tec-cigarro-triiiiim-seguradora-esperança-boa-tarde-tec-tec-tec-pois-não-?), eu decidi parar. O carro não conseguiu desviar, frear, me evitar. Senti o baque e, feliz, avistei a bola azul.
Parada no ar.
Parada _mas eu voava em direção a ela. Com tanta força, com tanta saudade.
Nunca acharam que eu iria aguentar.
E eu não aguentei.
Mas já não dói, sabe... Nadinha.

4 comentários:

Mariana disse...

Afe... que lindo...
Assinado; sua fã.

Ilis disse...

muchas gracias, chica!
besos.
:)

Ricardo Westin disse...

Amarílis: teu blog é coisa fina, alto nível. Mesmo. Tiro o chapéu!

Ilis disse...

Tu nem usa chapéu, menino Westin!
:)