domingo, 6 de maio de 2007

fome

Entre os corredores tranqüilos do supermercado, ela foi atropelada pelo desejo intenso de comer carne.
De vegetariana-praticante-de-ioga-professora-de-música&budista, viu-se num instante reduzida a um simples animal carnívoro. E a fome que roncou em suas entranhas sequer pertencia a ela _era um bicho que despertava após uma hibernação de séculos.
Devorou com os olhos os pedaços crus de maminha, lagarto e picanha. Até o ventinho frio que vinha das prateleiras atiçava o apetite. Só podia lamentar naquela abundância toda que não fosse preciso caçar.
Sempre dizia que se alguém visitasse um abatedouro, viraria vegetariano imediatamente. Os olhos tristonhos do gado, o mugido longo pedindo ajuda, o baque após a paulada. E agora ela mesma queria mirar, matar e comer.
Não sentia culpa, nem vergonha, nem se fez de surpresa. Temperou e tostou o bife na manteiga como se fosse essa a sua rotina a cada noite. Mastigou com vontade, lambeu o sangue dos dedos e palitou os dentes.

Sentia, sim, um gosto de morte. Amanhã, talvez, surgissem questões morais a serem resolvidas.
Por hora, havia a digestão.

2 comentários:

Ricardo Westin disse...

moshi-moshi!

eu fiquei com essa mesma sensação hoje diante do pacote de bolacha recheada (trakinas).

mas minha preocupação não é a vida animal por trás de cada bolachinha (até porque não há. ou há?!). é a gordura trans!

resisti bravamente.

eu não sou normal, sou?

Ilis disse...

gordura trans? sei...
sua preocupação era quanto às calorias mesmo, aposto!
;-P
bj

ps - segundo as propagandas (bizarras!) há sim vida por trás das bolachas trakinas. são umas bolachas gigantes com cara de monstro... ui!
bj